Exatos dois anos depois do assassinato que chocou Mato Grosso, o Tribunal do Júri de Cuiabá começou a julgar, nesta quarta-feira (15), o primeiro acusado pela morte do advogado e ex-presidente da OAB-MT, Renato Gomes Nery. No banco dos réus está Alex Roberto de Queiroz Silva, apontado pelo Ministério Público como o executor dos disparos que mataram o advogado em 2024.
A sessão marca o primeiro julgamento de um caso que mobilizou as forças de segurança e revelou uma investigação complexa, com diversos denunciados por participação no homicídio. Enquanto os demais acusados ainda aguardam o fim dos recursos para serem submetidos ao Tribunal do Júri, a expectativa da família é de que o julgamento represente o início da responsabilização dos envolvidos.
Filha de Renato Nery, Livia Moreira Gomes Nery afirmou que espera que os jurados analisem atentamente as provas produzidas durante a investigação.
“Eu gostaria que a Justiça fosse feita, porque no júri vão ser expostos todos os fatos. Eu vou ser uma mera testemunha de acusação.”
Para ela, o assassinato do pai extrapolou o drama familiar e revelou a sensação de insegurança vivida pela sociedade.
“Foi um crime que aconteceu em uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Meu pai saiu para trabalhar e levou sete tiros na cabeça. Isso foi desesperador e mostrou como a gente está inseguro aqui.”
Livia também afirmou acreditar que a motivação do crime está ligada às disputas judiciais conduzidas pelo advogado.
“Eu acredito, e os autos mostram isso também. Foi uma disputa judicial que resultou nesse crime.”
Medo e insegurança após o assassinato
A filha do advogado contou que, após a execução, a família passou meses convivendo com medo, sem saber se também poderia ser alvo dos criminosos.
“O velório foi escoltado pela polícia durante 24 horas. Depois eu perguntei para um delegado se nós estávamos seguros, e ele respondeu que não sabia. Como meu pai conduzia processos importantes, nós não sabíamos se aquilo poderia chegar até nós. Ficamos meses sem saber sobre a nossa própria segurança. Foi muito complicado.”
Ela também disse que ficou surpresa com a dimensão que a investigação tomou ao longo dos meses.
“Nós nunca imaginamos que tantas pessoas estariam envolvidas. Chegou um momento em que havia 12 pessoas presas. Quando apareceram policiais envolvidos, foi ainda mais assustador. Desde o início já se sabia que o executor tinha treinamento policial, então imaginávamos que havia algo maior por trás.”
Acusação espera novas revelações
Advogado que acompanha a família da vítima, o criminalista Walmir Cavalheri afirmou que a expectativa é de um julgamento sem grandes surpresas quanto à autoria dos disparos, mas espera que o réu apresente informações que ajudem a esclarecer a atuação dos demais envolvidos.
“Trata-se de um réu confesso. Eu acredito que não haverá grandes novidades. Mas seria importante que ele fizesse algumas revelações. Isso poderia até repercutir na pena que certamente vai receber.”
Segundo o advogado, a investigação já reúne elementos sobre o pagamento feito ao executor.
“Está praticamente comprovado nos autos que ele recebeu cerca de R$ 110 mil e que a promessa era de R$ 200 mil pelo assassinato.”
Mesmo assim, Cavalheri afirma que a acusação pretende demonstrar que o crime não foi praticado de forma isolada.
“A acusação está preparada para demonstrar que ele não agiu sozinho. Não existe nenhuma prova de que ele tenha tratado diretamente com os mandantes, o que reforça que havia uma organização por trás da execução.”
Sobre os demais denunciados, o advogado explicou que ainda não existe previsão para novos julgamentos.
“Todos ainda têm recursos pendentes. Existem recursos no Tribunal de Justiça, no STJ e no Supremo. Por isso, ainda não há data para que os outros acusados sejam levados ao Tribunal do Júri.”
Caso seja condenado, a expectativa da acusação é que Alex Roberto receba uma pena superior a 20 anos de prisão.
“Pela gravidade dos fatos, acredito que a pena fique entre 20 e 25 anos.”
O julgamento
Alex Roberto de Queiroz Silva responde por homicídio qualificado e crimes conexos. Conforme a denúncia do Ministério Público, Renato Gomes Nery foi baleado na manhã de 5 de julho de 2024, em frente ao escritório onde trabalhava, em Cuiabá, e morreu no dia seguinte, 6 de julho de 2024, em decorrência dos ferimentos.
A acusação sustenta que o assassinato foi encomendado em razão de uma disputa judicial envolvendo terras, mediante promessa de pagamento de R$ 200 mil ao executor.
O julgamento é realizado no Plenário do Tribunal do Júri do Fórum de Cuiabá, dentro do Programa Mais Júri, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. A decisão sobre a condenação ou absolvição será tomada por sete jurados, representantes da sociedade.
Se condenado, Alex Roberto será o primeiro dos denunciados a receber sentença no caso. Os demais acusados ainda aguardam a conclusão dos recursos judiciais para serem submetidos ao Tribunal do Júri.
























