Vistoria realizada na manhã desta sexta-feira (29), no almoxarifado da Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá revelou mais de 16 mil livros armazenados sem utilização. A fiscalização foi acompanhada pelo prefeito Abilio Brunini, pelo presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), Sérgio Ricardo, vereadores, auditores e técnicos da Corte de Contas.
Os exemplares fazem parte de um conjunto de materiais didáticos que está no centro de uma investigação sobre contratos da Educação que, segundo a Prefeitura de Cuiabá, podem ultrapassar R$ 80 milhões.
Durante a visita, um dos materiais apresentados foi o livro “Educação Financeira & Consumo Consciente”, destinado aos professores da rede municipal. De acordo com o TCE, cada unidade foi adquirida por R$ 115.
Ao comentar o caso, o presidente do Tribunal de Contas afirmou que o problema não está no tema abordado pelos livros, mas na ausência de utilização do material.
“Educação financeira é importante e deveria fazer parte da formação dos estudantes. O que chama atenção é encontrar milhares de exemplares armazenados, sem uso, enquanto existem outras demandas urgentes dentro da rede municipal”, afirmou Sérgio Ricardo.
Segundo o conselheiro, os mais de 16 mil livros encontrados no almoxarifado se somam a outros exemplares que já teriam sido distribuídos para escolas, mas que também não estariam sendo utilizados.
A vistoria ocorreu um dia depois de uma reunião entre Sérgio Ricardo e o prefeito Abilio Brunini no Palácio Alencastro. Após a visita ao almoxarifado, o prefeito voltou a questionar os gastos realizados pela gestão anterior.
“Não estamos discutindo se o conteúdo do livro é bom ou ruim. A questão é saber se esse investimento era prioridade naquele momento. Enquanto escolas precisavam de manutenção, limpeza e outras melhorias, milhões de reais estavam sendo destinados para materiais que ficaram parados”, declarou.
Contratos sob investigação
A Prefeitura de Cuiabá encaminhou documentos aos órgãos de controle e às polícias Civil e Federal apontando supostas irregularidades em processos de aquisição de materiais didáticos realizados entre 2025 e 2026.
Segundo a administração municipal, a licitação investigada gira em torno de R$ 80 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 21 milhões já teriam sido pagos no início deste ano.
O secretário municipal de Economia, Marcelo Bussiki, afirmou que os pagamentos estão sendo analisados pela equipe técnica do município.
“Estamos reunindo documentos, verificando contratos e acompanhando as auditorias para entender a dimensão dos gastos e identificar eventuais responsabilidades”, disse.
A Prefeitura informou ainda que uma investigação interna foi aberta em janeiro deste ano e que novos pagamentos relacionados aos contratos foram suspensos após o surgimento das suspeitas.
Câmara acompanha fiscalização
A presidente da Câmara Municipal de Cuiabá, Paula Calil, acompanhou a vistoria ao lado de vereadores e defendeu o aprofundamento das investigações.
“É fundamental que todos os fatos sejam esclarecidos. Estamos falando de recursos públicos que deveriam atender diretamente os estudantes e a comunidade escolar”, afirmou.
O Legislativo municipal discute a possibilidade de instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os contratos relacionados à compra dos materiais.
Livros de até R$ 800 e suspeita sobre conteúdo
Além dos livros de educação financeira encontrados no almoxarifado, a Prefeitura afirma que investiga a aquisição de outros materiais didáticos com valores considerados incompatíveis com os praticados no mercado.
Segundo a administração municipal, alguns exemplares teriam custado até R$ 800 por unidade.
Outra suspeita levantada pela gestão envolve a produção do conteúdo dos materiais. De acordo com a Prefeitura, parte dos livros pode ter sido elaborada com auxílio de inteligência artificial e apresentaria erros de português.
As denúncias já são apuradas pelo Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público, Controladoria Geral do Município e demais órgãos de fiscalização.
Enquanto as investigações avançam, a imagem das pilhas de livros armazenadas no almoxarifado se transformou em um dos principais símbolos da discussão sobre a aplicação dos recursos públicos na Educação de Cuiabá.
























