Os crimes de violência psicológica e perseguição (stalking), frequentemente apontados como precursores do feminicídio, registraram crescimento expressivo em Mato Grosso nos últimos anos. Os dados colocam o Estado entre os que apresentam as maiores taxas do país e reforçam o alerta para a escalada da violência de gênero antes que ela resulte em agressões físicas ou mortes.
Em 2025, Mato Grosso contabilizou 3.720 casos de violência psicológica contra mulheres, um aumento de 70,3% em relação a 2024, quando foram registrados 2.184 casos. Se comparado a 2023, primeiro ano de registro desse tipo de crime, o crescimento chega a 187%.
Com isso, o Estado alcançou uma taxa de 192,3 casos por 100 mil mulheres, a segunda maior do Brasil, atrás apenas de Roraima. O índice é quase três vezes e meia superior à média nacional, de 55,6 casos por 100 mil mulheres.
Os números também chamam atenção em relação ao crime de stalking, caracterizado pela perseguição repetitiva que ameaça a integridade física ou psicológica da vítima, restringe sua liberdade ou invade sua privacidade.
Em 2025, foram registrados 2.970 casos em Mato Grosso, um crescimento de 31,6% em relação ao ano anterior. Desde 2021, quando o crime passou a ser tipificado e teve 751 ocorrências, o aumento chega a 295%.
A taxa estadual atingiu 153,5 casos por 100 mil mulheres, acima da média nacional, colocando Mato Grosso entre os estados com maior incidência desse tipo de violência.
Crimes costumam anteceder o feminicídio
Para especialistas, o crescimento desses registros preocupa porque, em muitos casos, a violência psicológica e a perseguição representam o início de um ciclo que pode evoluir para agressões físicas e até feminicídios.
A coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher (Nudem) da Defensoria Pública, Rosana Leite, destaca que muitas vítimas demoram a identificar que estão vivendo uma situação de violência.
Segundo ela, é comum que mulheres convivam durante meses ou anos com controle excessivo, vigilância constante, ameaças e manipulação emocional sem perceber que essas condutas já configuram crimes.
O que caracteriza violência psicológica
Criado pela Lei nº 14.188/2021, o crime de violência psicológica contra a mulher pune ações que causem dano emocional ou tenham o objetivo de controlar comportamentos, decisões e a liberdade da vítima.
Entre as condutas previstas estão:
- ameaças;
- humilhações;
- constrangimentos;
- manipulação emocional;
- isolamento social;
- vigilância constante;
- chantagens;
- ridicularização;
- controle da rotina e da liberdade.
Perseguição também é crime
O crime de stalking foi incluído no Código Penal em 2021 e ocorre quando uma pessoa passa a perseguir outra de forma repetitiva, presencialmente ou por meios digitais.
A pena é aumentada quando a vítima é mulher e a perseguição ocorre em contexto de violência de gênero.
Educação e denúncia são apontadas como caminhos
A titular da Coordenadoria de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e Vulneráveis da Polícia Civil, delegada Judá Marcondes, afirma que combater esse tipo de violência passa também pela educação e pela desconstrução da cultura que desacredita as vítimas.
Segundo ela, muitas mulheres deixam de denunciar por medo de não serem acreditadas ou de sofrerem novos constrangimentos.
Em Mato Grosso, denúncias podem ser feitas pelos telefones 197 (Polícia Civil), 190 (Polícia Militar), 180 (Central de Atendimento à Mulher) e 100 (Direitos Humanos).
As vítimas também podem solicitar medidas protetivas de urgência por meio do aplicativo SOS Mulher MT, que permite fazer o pedido diretamente pelo celular e disponibiliza ainda o botão do pânico para mulheres já protegidas por decisão judicial.

























